O salto no escuro (uma história da pandemia COVID-19) Capítulo 36

Com o decreto de calamidade em saúde pública, foi constituída a Comissão Especial da COVID-19.  Com atribuições do tamanho de um bonde. Fiquei na presidência. Deputado Francisco Júnior na relatoria. Seis senadores e seis deputados, igual número de suplentes.

E viemos tocando o barco. Com audiências públicas, olhando as contas, os recursos novos para a saúde, os “dinheiros” para auxílio emergencial aos necessitados. Os créditos às microempresas e pequenas. E o tempo foi passando. De vez em quando um furo nas falas, para delírio da grande imprensa. Não pelos relatórios, mas pelos ministros que aqui compareceram.

O mês de abril ficou para trás, o mais trágico de todos. O Brasil experimentou uma queda brutal em sua economia. Naquele período, em todo lugar, o medo da doença ainda estava naquele pipoco de nada se saber.

Ouvimos o Brasil e seus segmentos. E em cada audiência se descortinava um cenário de déficit fiscal, depressão econômica, queda do PIB, que a princípio seria de 10% e que foi se amenizando, até que o comércio e as atividades econômicas foram reagindo, a partir de julho, para se situar, conforme se prevê, em torno de 5%. Menos mal. Assim, com este cenário otimista, encaixado no pessimismo, poderemos atingir 700 bilhões de desequilíbrio das nossas contas.

O endividamento pode comprometer 90% do PIB, e tudo que é conta, tudo, tudo, teremos que gastar pestanas e noites mal dormidas para quitar o buraco até 2027, salvo golpes de sorte. O que será difícil de acontecer porque os deveres necessários para arrumar a nossa própria casa, já tardam em acontecer.

O Brasil tem enorme dificuldade em fazer o que deve ser feito. Parece que tem uma força estranha que nos puxa em sentido contrário. Parece que as corporações dominam a capitania. Parece que os bancos são donos do bolo. Parece que o protecionismo, as subvenções e os incentivos fiscais puxam para o centro da Terra mais forte do que a própria gravidade.

Parece que se parece com uma cobra engolindo o próprio rabo e vai sumindo, comendo, até a cobra sumir e ir para o espaço.

Ontem, o Ministro Paulo Guedes soltou a franga. Bateu pesado nos bancos. Nas maiores empresas. Nos lobistas que dominam o governo e o congresso. Criticou o Rogério Marinho, como Ministro gastador. E desceu o sarrafo. A imprensa foi ao delírio. Já estamos no final de outubro. O Decreto de calamidade termina em 31 de dezembro deste ano. Confesso que vou rezar. E as chuvas iniciaram e estão apagando os incêndios dos nossos mais sagrados biomas.  Pelo menos uma coisa boa – a chuva.

 

Texto escrito em 30 de outubro.

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