Há três anos, bem no dia exato, que não poderia ir, eu fui. E digo-lhes- caso conheça Lisboa não precisa ler o meu texto. Mas, se ainda não a conhece, está aqui um relato detalhado de uma visita que fiz a Portugal há três anos e só agora, depois de reler, percebi que retrato com detalhes o meu reencontro, com a cidade dos livros e da nossa história e das nossas relações escolares.
Embarque para Lisboa. Como se fosse à busca de um amigo desconhecido, mas, que seria um amigo e era, a minha própria História do Brasil. Oito horas de voo. Como se fossem dias. Avião grande com bancos apertados. Nada melhor para encurtar a distancia do que dormir. Ó céus! Que nesta hora, sem hora, sem céu, sobre o Atlântico escuro, um voo de aves de arribação.
Fuso horário com cinco horas a mais. Dormimos além do normal, perdidos nas diferenças do tempo. Temperatura altíssima. Maior que a de Rondônia. Demos voltas às margens do Rio Tejo para admirá-lo, e puxar na memória as referencias dele nos livros, dos poemas e das despedidas dos seus guerreiros e descobridores. Fomos conhecer o shopping Vasco da Gama. Noite de fado na Casa de Linhares, Bairro antigo de Alfama. Becos estreitos, casarões, creio que a arquitetura é da Idade Media. Tudo com cheiro de antiquários e de saudades.
Gostei dos pães portugueses. E abusamos nos dias de visitação do bacalhau a0s peixes das águas salgadas. Percebi que os portugueses cuidam bem da saúde. Praticam esportes e fazem cedo e noite batalhões de corredores de rua.
A cada momento o mundo pra mim é novo. Mesmo antiga Lisboa me reencontra como filho arredio. Tudo aqui sou eu. Não vi os seus interiores, mas, seus cumes. Meus olhos penetraram por cima, para ver intimidade da cidade. As fímbrias das portas, os segredos das suas muralhas. A cidade passa por crise. É chegada a hora de novos descobridores de alternativas. De chaveiros para abrir as portas misteriosas da economia. Há uma desconfiança generalizada na classe política. A economia é monstro dos mares. Não se sabe o que venha ser mercado e seus limites.
II
Pude sentir Lisboa de velhos. Achei as mulheres lindas e bem cuidadas. Poucos obesos. Um povo vaidoso. Conversei muito com motoristas de taxis, sempre muito bem informados sobre economia e política. Todos com posições definidas e com ideologias próprias.
Vi muitas Lisboas numa mesma cidade. Vi muitas Lisboas em conflito entre os tempos. A velha e a nova se beijando com ternura. A Lisboa dos mouros, dos espanhóis e o retorno delas, multicultura, quase não se cabendo por dentro, pelos choques de várias tradições. Vi a arte mourisca, gótica, barroca, helênica, rococó, manuelina. Vi tudo que olhos podem ver. Pude sentir tudo que a pele e ouvidos sentem também. A velha cidade sem vigas, mas, com erguida sobre blocos imensos. Vi a eternidade em suas construções.
E agora, vi na parte Norte de Lisboa, a cidade contemporânea. Erguida onde foi terreno baldio e pontos de refinarias de petróleo e armazéns de cargas. Nesta parte, ergueram-se os grandes hotéis, shopping, cassinos, pontes, viadutos, centros de convenções como a Feira Internacional de Lisboa, gigante, com vários pavilhões
Portugal na União Européia foi com ganância aos empréstimos para construção de autoestradas, metrôs e prédios. Chegou a hora dura de pagar. O povo gostou e se endividou coletivamente. A conta é de todos. Agora, vamos ver o Velho Portugal no sacrifício para pagar a conta.
III
***CASTELO DE SÃO JORGE – o velho Portugal ou velha Lisboa e seu passado. De cima se vê o casario e o Tejo que se alarga como se transformasse numa baía. Tudo mostra bem claro, que a vida passa. E obra fica. Esta fortaleza erguida se mantém há séculos. Turistas de todo mundo sobem suas ladeiras. É um mundo mágico. Escadas pensadas para os jovens e atletas. Na praça do castelo com arvores de esplendor decorativo, soltas, banquinho e violão, João Bastos, num largo envolto de muralhas altas, como uma praça, dedilha musicas clássicas, num cenário de castelos centenários. O som se encorpa o ambiente e faz palco. A vida e seus momentos. Aqui dá para se ir longe. Muito além do pensamento. Pode se viajar ao imaginário da utopia. Sol a pino. Por fim, o periscópio, invento originário de Leonardo da Vinci, que em tempo real, milagrosamente, com lentes, câmara escura e uma mesa flutuante, cordas e hastes mostra a cidade inteira em tempo real. Tudo funciona como se fosse uma poderosa câmera de vigilância.
Creio que estou velho e exigente. Não gostei das sardinhas servidas. Troquei-as por bacalhau. Prato obrigatoriamente precisa de arte. Sem ela é uma comida sem graça. Ou arte ou amor.
PALÁCIO QUELUZ – local onde morreu D Pedro I, final do século XVIII, construído pelo que vi no modelo de Versalhes. Amplo, com muitos aposentos, bem na conformidade das monarquias européias, nos castelos, nos hábitos faustosos, esporte preferido a caça, obras de arte, castiçais, mobiliário personalizado, lustres, louças, talheres, pratarias, arreios para animais. Uma hora de périplo por corredores, jardins belíssimos e praças adornadas por estatuas e obras de arte. As capelas sempre presentes, douradas, prateadas e ricamente pintadas. Em arte e prosa. Entrei no banheiro, porta única para homens e mulheres. No vão divisório duas negras, Ana e Deusa, ambas de Guiné Bissau. Conversei com elas ali mesmo, alegres, solicitas trabalhadoras braçais no seu pátrio pais colonizador. O Palácio no seu conjunto é uma obra de arte, para demonstrar bem claro, que os reis gostavam de luxo e gastança de dinheiro, porque o tempo passou e as monarquias no mundo permanecem iguais. O povo gosta de tudo isto e se encanta com seus dirigentes especiais, ditos de sangue azul.
SINTRA – No pico de uma montanha, em Sintra, ergueu-se suntuoso Palácio da Pena. Antes foi convento, destruído por terrível terremoto. Mais tarde adquirido pela monarquia e reconstruído como um majestoso castelo. A reconstrução deve ter durado dezenas de anos. Na saia da montanha uma floresta densa de arvores européias. A base do imenso palácio é uma laje. Sem guindastes, alavancas e outras máquinas de carga, mesmo assim o palácio foi construído por intrigante capricho. Se não fosse um ônibus para traslado entre a base e o cume a jornada seria ainda mais penoso. Maioria dos visitantes é idoso. Agora, na velhice, como eu, volteiam pelo mundo para justificarem suas vidas duras. E na velhice, por direito, penam nas íngremes colinas, a visitarem os encantos do poder e gloria de reis e rainhas. E a vida continua, com as gerações se enfileirando uma no rabo da outra. Famílias e minorias sempre disputaram poder e glória. Cidade de Sintra com intenso furor de turistas a entrarem e saírem de lojistas e bares. Culinária especializada em doces: queijada e travesseiro. Este um bolo de massa fina adocicada. As escadarias pesam para se ver os detalhes do castelo Tirar fotos nas guaritas tem risco. E tudo é muito louco. Uma aventura que se pode considerar irresponsável.
IV
Praia do Guincho – Oceano Atlântico, belas praias e grandes vistas de rochedos, penhascos, praias, restaurantes ricos. CABO DA ROCA – ponta mais ocidental do continente europeu. “Aqui … Onde a terra acaba e o mar começa” (Camões). Entre Sintra e Cascais.
Do alto se pode ver, humilde que o Atlântico, não é só brasileiro. O mar é vasto. Parece-me infinito. E o mundo, por mais que pareça ser diverso, é o mesmo, movido por geografia e emoções. Pude ver aqui uma amostra da diversidade dos homens, americanos, portugueses, brasileiros, franceses e italianos, bonés, chapéus, bermudas, máquinas fotográficas e câmeras filmadoras. Todos igualmente humanos, divergentes apenas no idioma, mas, todos absortos nas mesmas paisagens e emoções. O que pesa em cada um, é a estampa da verdade verdadeira: a vida é breve, grande e perene é o universo. E também nos alegra e amedronta o sentimento da transformação. Depois da morte, o que seremos diante de tanta grandeza? Como disse: um ponto de lápis numa folha de papel, dividido por 7 bilhões de pessoas que tem a mesma pergunta. Somos todos, um ponto em sua bilionésima parte. E achamos isto o máximo.
“Tirei esta tarde para vadiar com meu pensamento. Nada levado a sério. Meu pensamento precisa de devaneios. Se não brincar de viver, não terei a virtude da morte”
BAIXA – Aqui vida lisboeta palpita forte. O povo circula e se mistura. Ruas largas, praças sem economia de espaço, sempre foi pensado a cidade para as pessoas. Enormes monumentos, pontos de ônibus e metrô. Na verdade o que se vê na cidade Baixa é um país e sua realidade. Com mendigos, ciganos insistentes. O velho pais colonizador com seus povos mestiços entrecruzando. Os casarios sem origem de data, mas, todos reconstruídos depois do brutal terremoto de 1755 seguidos maremoto destruidor. A cidade se fez de novo. Como digo sempre, só no infortúnio torna homem generoso e unido, com indomável sentimento da reconstrução. Mãos humanas deram vida nova à cidade. A Baixa continua alta e nova e viva.
Praça do comércio – enorme, histórica, estátua gigantesca de D. José I, erguida no século XVIII- num lindíssimo cavalo, com detalhes perfeitos, sobra a extraordinária virtude da arte, prerrogativa para poucos. Rua Augusta só para pedestres , bancos, lojas, bares e mesas nas calçadas. Este monumento vale Portugal. Quanto vale Portugal? Quanto deve Portugal aos bancos europeus e ao FMI? Com certeza o monumento em honra de D. José I paga qualquer conta.
Praça Dom Pedro IV – chafarizes atirando águas nos ombros das estátuas. Há um encadeamento de ruas, praças e monumentos. Por onde se fita o olhar ele e se acomoda num leito de admiração e prazer. Porque o belo é um prazer intrínseco a raros sentimentos, bom para corpo e espírito.
PRAÇA DOS RESTAURADORES – obelisco e alameda ao fundo continuo com a Av. Liberdade. O casario século e século igual. É a parte mais antiga da cidade. Belíssima.
V
PRAÇA MARQUÊS DE POMBAL – Ela em si não é uma praça comum. É portal para admirável, ponto de encontro da cidade, ambiente para os turistas verem e admirarem. Os nativos não a enxergam assim, tão valiosa, tal a repetição dos seus dias. E todos estes monumentos estão incorporados à paisagem comum de suas vidas. Passam por eles sem levantarem seus olhos, só tem sentidos para o relógio e o compromisso. Pra mim não, agradeço tudo aquilo, com orgulho, como se fosse construída para o meu deleite e glória. Estou glorificado com Marquês de Pombal. Um governante corajoso, audacioso, rompeu com nobres e o poder da igreja. Expulsou os jesuítas de Portugal e do Brasil. revolucionou tudo, sofreu e pagou caro por todos os avanços que promoveu. Porque é assim a paga que recebe os bons governantes.
O urbanista que projetou a Baixa em Lisboa foi futurista e respeitoso com o homem. Não para o automóvel. A praça penetra num belo jardim e parques, Maria I e Henrique IV. Bem assim, o monumento a Pombal além de grandioso e rico é imponente como foi o Marquês. Homem que colocou o Estado bem alto, enquanto a nobreza e o clero no seu devido lugar. Sem privilégios.
CHIADO- PRAÇA CAMÕES – Foi e ainda é Bairro Nobre, onde circularam no passado poetas e intelectuais. A fina flor dos endinheirados. Com seus bares, hotéis e livrarias. À frente do Bar Brasileiro tem estátua de bronze do poeta Fernando Pessoa. Ao centro a Praça Camões com estátua igual as demais, destaca o seu maior escritor. Fomos almoçar num restaurante badalado para estrangeiros, dentro dele uma algazarra de idiomas que mais parece uma Torre de Babel. Os garçons sem paciência e agitados. Não é um bom lugar para se ter paz. Alice perdeu o chapéu que havia comprado há pouco. Pegou um nervoso súbito e não sabe onde deixou a peça de proteção para um sol escaldante e temperatura de 38 graus. Nem parece Europa. E sim o marco Zero tropical em Macapá.
FEIRA INTERNACIONAL DE ARTESANATO – ampla feira, com vestuários, sapatos, peças em couro, madeira, brinquedos, jóias, acessórios diversos. Países africanos, Peru, Brasil, Portugal, Indianos, asiáticos. Impossível visitar com apuro a cada estante. Alice comprou bolsas, lenços, eu, apenas uma camisa peruana por 25 euros. Saímos de lá as 22,30h.
VI
MOSTEIRO DE JERÔNIMO – trata-se de obra extraordinária. Construção em arte e requinte. Pelo que se percebe, pelos detalhes, não houve pressa. O objetivo foi a beleza e superação. O altar e o átrio luxuoso e reflexivo. Dois mausoléus centenários. Seis enormes colunas, que corresponde a um edifício 4 andares. Abrem-se em cima, no teto abobadado, como uma flor, que se amplia em nervuras e se perdem neste labirinto incrível de formas geométricas nervuradas. O homem na permanente busca da eternidade, pelo sacrifício e soberania da arte. Porque o Mosteiro de Jerônimo é eterno em si mesmo, enquanto for possível ser. Nele estão os túmulos de Fernando Pessoa e Alexandre Herculano.
“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim ou cada lago ou lua toda
Brilha, porque alta vive
(Fernando Pessoa, com o nome de Ricardo Reis, em 14.02.1933)”
MONUMENTO DOS DESCOBRIDORES – obra feita para homenagear os 500 anos do Infante D Henrique e todos os descobridores que se lançaram ao mar em aventura, risco, ousadia e com o maior conhecimento da ciência dos oceanos que se tinha à época. Portugal foi uma potência do conhecimento.
TORRE DE BELÉM – Uma torre, como se fosse um prédio, beira-mar, para guarda de canhões e armas de defesa. Foi fortaleza. Era duas, uma de cada lado do Rio Tejo. Da margem oposta foi destruída pelo Terremoto de 1755. Ficou esta como uma sentinela desarmada de todos os tempos e outros que ainda virão.
FEIRA NACIONAL DE CULINÁRIA – Centro de Convenções de Lisboa é exageradamente grande. Não vi nele concreto. Só ligas metálicas, vidros, placas de diversos materiais e tubos de aço. Centenas de cantinas, defumados, queijos, doces, vinhos, moscatel, restaurantes de Cabo Verde, Alentejo e outras regiões do país. Uma tentação a minha aguçada gula, que se desperta a cada olhar. cansados de andar a pé, para ser a cidade como ela é preciso perseguir os seus segredos, cadenciadamente.
VII
” quero este dia seja um grande dia. Como o dia da grande batalha vitoriosa. Quero este dia constrangedor ao inimigo. Que fingirá não se lembrar dele.
Enfim, quero este dia grande, para me caber nele inteiro, onde no seu portal do dia, hoje, nada tenho a escrever de glorioso, a não ser que nada fiz”
Oceanário de Lisboa – Valeu a viagem. Por tudo que me remeteu. Foi como tivesse mergulhado por todos os oceanos e me encontrasse com os peixes, todos eles, todas as cores, tamanhos. Com as tartarugas, anfíbios, mariscos, medusas. Estas são noivas esplendorosas, dançam com sutileza e leveza das bailarinas. Tem luzes próprias que exalam de seus corpos de espuma.
ATLÂNTICO
“Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia” Sophia de Mello Breyner Andersen.
Foram duas horas para percorrer todo o circuito do OCEANÁRIO, que foi ainda pouco, bem que se poderia retornar ao zero, pagar novo ingresso e voltar ao mergulho admirável.
“NO ALTO MAR
No alto mar a luz escorre, lisa sobre a água, planície infinita, que ninguém habita.
O sol brilha enorme, que ninguém forme gestos de sua luz
Livre e verde a água ondula, graças que ninguém modela o sonho de ninguém.
São claros e vastos os espaços, onde baloiça o vento, e ninguém nunca se delícia ou de tormento.
Abriu neles os seus braços (Sophia Mello)”
O OCEANÁRIO serve a todos, mas, creio que os maiores objetivos são para estudantes, com certeza, depois da visita muitos optam pelos estudos dos mistérios dos mares.
“FUNDO DO MAR
No fundo do mar há brancos pavores, onde as plantas são animais e os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge a agitação das ondas, abrem-se rindo, baloiça o cavalo marinho, um polvo avança no desalinho dos seus mil braços
Uma flor dança, seus ruídos vibram os espaços
Sobre a areia o tempo poisa, leve como um lenço. Mais bela que cada coisa, tem um monstro em si suspenso. (Sophia Mello)”
LISBOA – É uma cidade especial para se viver. Encontrei brasileiros trabalhando e passeando. Do taxi às lanchonetes. Os espaços públicos amplos servem para aulas, passeios ao ar livre. Bancos em abundância. Vi crianças entre 3 e 5 anos brincando na praça com suas professoras. E corriam, subiam em bancos, rolavam nos gramados. O paisagismo ê acurado, em fileiras simples, em duplas ou aglomerados arbóreos. Mas, sempre se tem sombra nos dias e ensolaradas. A velha Lisboa também é assim, fora deste estilo, Bairro de Alfama, a Baixa. Onde iniciou do jeito da época, becos estreitos e casario geminado, como se um dependesse do outro. Que os gemidos fossem ouvidos. E as e energias dos corpos se irradiasse uns para os outros num acalento e sentimento de proximidade das pessoas, a consangüinidade e a fácil comunicação.
Encerro o meu relato, dizendo que fiquei cansado de tanto andar a pé, tomar café da manhã em padarias, mercados e beliscar a especialidade lisboeta que são os doces, licores e moscatel, além do digestivo Vinho do Porto.
“Foi-se o tempo que não existe mais, uma visita a um lugar vazio, um mercado de beijos e dores e que tudo se faça com o próprio ouro, o próprio couro, o duro suor, a visão das noites maldormidas”

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