Os “quero-quero”

Os “quero-quero”

De vez em quando me bate a bendita insônia. Eu fico teimando, ali, quieto, de olhos fechados, cutucando o cérebro, procurando o que não guardei. E vai assim. O pensamento viajando, como céu estrelado, penetrando em labirintos, escapa, sei lá! Chego a flutuar, em vez de sonhar, nesse estado de latência.

Os ouvidos ficam, na madrugada, aguçados, à procurada de sonoridades, de segredos da noite, de sons entremeados, de silêncios… quando, num dia, me deparei com marteladas, na forma de canto de passarinho. Assim, não poderia resultar em outra, me veio a imagem dos pássaros, dos espaços livres, que têm muitos nomes, que todo mundo conhece, pelo seu escândalo, pela coragem – os “quero-quero”.

Havia chegado às 2h30 da madrugada. Era tarde. Os bigorneiros não paravam. Eu não havia reparado que esses bichos têm insônia também. Se não for, devem ter motivos justos para esse despertamento. Queria inspiração para um poema. Queria viajar na nuvem de chuva. Queria me ocupar nesse espaço que poderia ser útil. O canto deles deve ter sido para escandalizar, quem sabe denunciar, por legítima defesa, algum intruso ameaçando a ninhada, ou vários outros motivos, que somente a psicologia comportamental dos bichos poderia explicar.

Vou parar, por ter achado a porta de saída na asa de um pensamento. Os “quero-quero” devem estar convocando a tropa, deles, para um ataque ao homem do bairro. Ali perto tem índio, que gosta das aves. O outro homem, o distante, o demolidor de ninhos, esse sim, ao ataque!  Voltei a dormir. “Quero-quero” não me pediu nada. Absolutamente.

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